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Por que é tão difícil abandonar uma decisão nas empresas

  • Writer: Natália Viana
    Natália Viana
  • Apr 15
  • 5 min read

Updated: Apr 23

Sob a lente do comportamento humano e da cultura, reflexões sobre apego, reputação e o custo simbólico de mudar de rumo.


Há um momento peculiar em muitas organizações em que quase todos já perceberam que algo não está funcionando como se esperava. Os indicadores deixam de confirmar as premissas iniciais, a execução exige cada vez mais correções, o entusiasmo que acompanhava o início do projeto já não está presente. Ainda assim, a decisão de seguir o rumo dita o ritmo: “continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar…”.


Às vezes, o que se observa não é apenas inércia. Há uma tentativa insistente de fazer o caminho funcionar, pequenos ajustes sucessivos, novas justificativas, revisões de metas, mudanças de narrativa. O rumo não é abandonado; ele é reinterpretado, adaptado, protegido. E, por algum tempo, isso sustenta a impressão de que a situação ainda está sob controle.


O curioso é que raramente isso acontece por falta de inteligência, de informação ou de capacidade analítica. Em muitos casos, as pessoas envolvidas são perfeitamente capazes de reconhecer, em privado, que o caminho precisa ser revisto [como explica o texto anterior, sobre a chamada “Síndrome de Cassandra”]. Mas a questão é que o que dificulta a mudança está além de compreender o problema. O x da questão é sustentar o custo de reconhecê-lo publicamente.


Decisões organizacionais não são apenas decisões. Com o tempo, tornam-se parte da história de quem as tomou, da narrativa que sustenta sua autoridade e da imagem que construiu diante dos outros. Voltar atrás não significa apenas corrigir um rumo. Significa reescrever um trecho da própria trajetória.


Esse é um tipo de perda que raramente aparece em planilhas.


O investimento que não volta


Como já foi dito por alto no texto anterior, há um conceito bastante conhecido na psicologia econômica chamado falácia dos custos irrecuperáveis. Ele descreve a tendência humana de continuar investindo em algo simplesmente porque já se investiu muito, mesmo quando as evidências indicam que interromper seria a escolha mais racional.


O termo costuma ser explicado com exemplos financeiros, mas seu alcance é mais amplo. Em contextos organizacionais, o que está em jogo não é apenas dinheiro. São horas de trabalho, capital político, discursos já feitos, decisões já anunciadas, expectativas criadas, reputações vinculadas ao sucesso daquele caminho.


Cada um desses elementos funciona como um fio que prende a decisão ao presente, mesmo quando o futuro já não a sustenta.


Abandonar uma decisão, nesses casos, não parece apenas mudar de direção. Parece desperdiçar tudo o que foi investido até ali, ainda que, racionalmente, esse investimento já não possa ser recuperado de qualquer forma.


A escalada silenciosa do comprometimento


Existe um fenômeno recorrente em estudos sobre tomada de decisão chamado escalada de comprometimento. Ele descreve o processo pelo qual, diante de resultados frustrantes, indivíduos e grupos não reduzem o investimento, mas o aumentam, na esperança de que o próximo movimento finalmente justifique os anteriores.


Esse mecanismo é mais comum do que se imagina porque ele protege algo que os seres humanos valorizam profundamente: a sensação de coerência. Reconhecer que uma decisão importante estava equivocada produz um desconforto psicológico difícil de sustentar. Persistir, mesmo diante de sinais contrários, preserva temporariamente a sensação de continuidade.


Não é uma escolha plenamente consciente. É uma forma de reduzir o atrito entre aquilo que se acreditava e aquilo que começa a se tornar evidente.


Quando decisões se tornam identidade


Em muitas empresas, decisões estratégicas deixam de ser apenas decisões e passam a ser símbolos. Tornam-se marcas de gestão, bandeiras de liderança, sinais de visão ou de ousadia. Quanto mais visível foi a decisão, maior tende a ser o custo simbólico de abandoná-la.


Isso ajuda a explicar por que decisões anunciadas em reuniões amplas, apresentações públicas ou planos estratégicos formais são particularmente difíceis de revisar. Elas não são apenas escolhas operacionais. Tornaram-se compromissos diante de um grupo.


E compromissos públicos têm peso.


O custo invisível de mudar de rumo


Mudar de direção implica mais do que revisar um plano. Implica admitir que o cenário mudou, que hipóteses não se confirmaram ou que a leitura inicial foi incompleta. Para quem ocupa posições de liderança, esse movimento pode ser percebido, ainda que de forma implícita, como uma ameaça à autoridade.


Esse é um ponto pouco discutido: em muitos contextos organizacionais, reconhecer um erro é psicologicamente mais difícil do que conviver com um problema crescente. O erro é imediato, visível e pessoal. O problema, quando se desenvolve lentamente, permanece difuso por mais tempo.


Essa assimetria favorece a inércia.


Abandonar como forma de perda


Existe uma dimensão emocional nessa experiência que raramente é reconhecida nas análises sobre estratégia. Abandonar um projeto, uma decisão ou um caminho pode ser vivido como uma forma de luto.


Não apenas pelo que foi investido, mas pelo futuro que se imaginava a partir daquela escolha. Toda decisão importante carrega consigo uma narrativa sobre o que virá. Quando a decisão precisa ser abandonada, essa narrativa também se desfaz.


O que se perde não é apenas o passado. É um futuro que parecia possível.


Perceber o problema não basta


Isso ajuda a compreender por que identificar problemas com clareza nem sempre é suficiente para que uma organização mude de rumo. Entre perceber e agir existe um intervalo povoado por investimentos passados, identidades construídas, compromissos públicos e custos simbólicos que não aparecem em nenhum relatório.


Mudar de ideia, em ambientes organizacionais, raramente é um ato puramente racional. É um processo psicológico, social e simbólico.


Talvez por isso, em muitos casos, a mudança só se torna possível quando a decisão deixa de ser vivida como uma derrota pessoal e passa a ser entendida como parte natural do ciclo de aprendizagem de uma organização. Quando esse deslocamento acontece, abandonar um caminho deixa de parecer fracasso e passa a ser percebido como maturidade.


O que nem sempre se reconhece é que esse deslocamento raramente acontece apenas pela força dos argumentos. Em ambientes onde decisões estão entrelaçadas a identidades, reputações e compromissos públicos, não basta que algo seja verdadeiro para que seja aceito. É preciso que seja legitimado, traduzido e reorganizado de uma forma que permita ao grupo mudar sem sentir que está perdendo a própria coerência.


É nesse ponto que o olhar de fora frequentemente se torna decisivo. Não apenas porque traz informação nova, mas porque introduz distância simbólica, linguagem comum e uma forma socialmente aceitável de revisar caminhos já percorridos. Quando esse processo é bem conduzido, a mudança deixa de parecer um recuo individual e passa a ser percebida como um movimento natural da organização.


No fim, abandonar uma decisão raramente é um ato de fraqueza intelectual. Na maior parte das vezes, é um exercício de lucidez que exige algo difícil de produzir no interior de qualquer sistema humano: espaço suficiente para reconhecer que continuar pode custar mais do que mudar.

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